Tipos de delírio de acordo com seus conteúdos

Tipos de delírios

Os tipos de delírio segundo seus conteúdos são apresentados a seguir. Em primeiro lugar, temos os delírios mais comuns. Depois, os menos vistos na prática clínica diária.

 

Delírios de perseguição

Delírio persecutório ou de perseguição

O indivíduo acredita que é vítima de um complô e está sendo perseguido por pessoas conhecidas ou desconhecidas. Isso inclui máfias, vizinhos, polícia, pais, esposa ou marido, chefe ou colegas de trabalho/ambiente estudantil.
Ele pensa que querem envenená-lo, prendê-lo, matá-lo, prejudicá-lo no trabalho ou na escola, desmoralizá-lo, expô-lo ao ridículo ou mesmo enlouquecê-lo…
É importante dizer que a perseguição é o tema mais frequente dos delírios.

 

Delírio de referência (de alusão ou autorreferência)

Aqui, o indivíduo apresenta a tendência dominante a experimentar fatos cotidianos fortuitos, objetivamente sem maiores implicações, como referentes à sua pessoa. Diz ser alvo frequente ou constante de referências depreciativas, caluniosas.
Ao passar diante de um bar e observar as pessoas conversando e rindo, entende que estão falando dele, rindo dele, dizendo que é um ladrão, etc. Enfim, tudo se refere a ele.
Às vezes, ouve seu nome e que o xingam (mecanismo alucinatório associado ao delírio de referência) ou simplesmente deduz que a conversa das pessoas em um bar diz respeito a ele (mecanismo interpretativo associado ao delírio de referência).
É comum nas psicoses em geral, sobretudo na esquizofrenia paranoide e nos transtornos delirantes.

 

Delírios de projeção

Delírio de relação

O indivíduo delirante constrói conexões significativas (delirantes) entre os fatos normalmente percebidos. Essas conexões novas surgem geralmente sem motivação compreensível. Por exemplo, o paciente agora sabe que tudo faz sentido, os fatos se relacionam (as chuvas do verão passado, o inverno atual mais frio, etc.), indicando “que realmente a guerra dos seres alienígenas irá começar”.
Tal tipo de delírio também apresenta contexto persecutório.

 

Delírio de influência ou controle

O indivíduo vivencia intensamente o fato de estar sendo controlado, comandado ou influenciado . Seja por uma força, pessoa ou entidade externa. Esse tipo de delírio é, no mais das vezes, também um delírio com conteúdo relacionado à perseguição.
Ele entende que há uma máquina (antena, computador, etc) que envia raios que controlam seus pensamentos e sentimentos. Um ser extraterrestre, um demônio ou entidade paranormal controla seus sentimentos, suas funções corporais.
Esses delírios são fortes indicativos de esquizofrenia e revelam o quão profundamente os limites do Eu, que separa o Eu privado, do mundo, estão fragmentados.

 

Delírio de grandeza

O indivíduo acredita ser extremamente especial, dotado de capacidades e poderes. Acredita ter um destino espetacular, assim como sua origem e seus antecedentes indicam que ele é um ser superior. Assim, o delírio é dotado de ideias de poder e riqueza. O sujeito pensa que pode tudo, que tem poderes mentais, místicos ou religiosos, além de conhecimentos superiores ou especiais. A autoestima pode estar extremamente elevada.
Os delírios de grandeza ocorrem tipicamente nos quadros maníacos.

 

Delírio místico ou religioso

O indivíduo afirma ser (ou estar em comunhão com, receber mensagens ou ordens de) um novo messias, um Deus, Jesus, um santo poderoso ou, até, um demônio.
O paciente sente que tem poderes místicos, que entrou em contato com Nossa Senhora, com o Espírito Santo ou com o demônio, que tem missão mística religiosa importante neste mundo, que é portador de uma mensagem religiosa fundamental.
Os delírios religiosos costumam ter aspecto grandioso, enfatizando a própria importância do sujeito que delira.

 

Delírio de ciúmes e delírio de infidelidade

Neste caso, o indivíduo percebe-se traído pelo cônjuge de forma vil e cruel. Afirma que ela(e) tem centenas de amantes, que o(a) trai com parentes, etc.
Em geral, a pessoa acometida pelo delírio de ciúmes é extremamente ligado e emocionalmente dependente do ser amado.
No entanto, o sentimento de ciúmes intenso e desproporcional em indivíduos muito possessivos e inseguros pode eventualmente ser difícil de diferenciar do delírio de ciúmes.
O delírio de ciúmes e infidelidade pode ocorrer em todas as psicoses, mas é mais característico no alcoolismo crônico e no transtorno delirante crônico.

 

Delírio erótico (erotomania)

Aqui, o indivíduo afirma que uma pessoa, geralmente de destaque social (um artista ou cantor famoso, um milionário, etc.) ou de grande importância para o paciente, está totalmente apaixonada por ele e irá abandonar tudo para que possam se casar.
A erotomania ocorre mais entre as mulheres, e a pessoa amada geralmente é mais rica, mais velha, de status social mais alto que o da paciente.
É relativamente frequente que a pessoa “escolhida” seja o médico ou a médica do indivíduo.
Por fim, a erotomania ocorre com mais frequência, como sintoma isolado, em transtornos delirantes.

 

Delírios de conteúdo depressivo

Delírio de ruína

Neste caso, o indivíduo vive em um mundo repleto de desgraças, está condenado à miséria, ele e sua família irão passar fome, o futuro lhe reserva apenas sofrimentos e fracassos.
Em alguns casos, o paciente acredita estar morto ou que o mundo inteiro está destruído e todos estão mortos.

 

Delírio de culpa e de autoacusação

Aqui, o indivíduo afirma, sem base real para isso, ser culpado por tudo de ruim que acontece no mundo e na vida das pessoas que o cercam. Também creem ter cometido um grave crime, ser uma pessoa indigna, pecaminosa, suja, irresponsável, que deve ser punida pelos seus pecados.
O delírio de culpa ou autoacusação é bastante característico das formas graves de depressão.

 

Delírio de negação dos órgãos

O indivíduo experimenta profundas alterações corporais. Relata que seu corpo está destruído ou morto, que não tem mais um ou vários órgãos. Isso inclui coração, fígado, cérebro, etc. Também podem referir que suas veias estão “secas”, sem sangue, seu corpo está seco ou apodrecido, seus braços e pernas “esfarelando”.
Denomina-se Síndrome de Cottard quando o delírio de negação de órgãos vem acompanhado de delírio de imortalidade e de enormidade. Isto é: “não vou morrer nunca mais, vou sofrer para o resto da eternidade”.
O delírio de negação dos órgãos e a Síndrome de Cottard são típicos das depressões graves com marcante componente ansioso. Também podem ocorrer na esquizofrenia.

 

Delírio hipocondríaco

O indivíduo crê com convicção extrema que tem uma doença grave, incurável, que está contaminado.
É um tipo de delírio muitas vezes difícil de ser diferenciado das ideias hipocondríacas não-delirantes.
O que os diferenciam é a intensidade da crença, assim como a total ausência de crítica do paciente e seu envolvimento com as preocupações hipocondríacas.
O delírio hipocondríaco ocorre em pacientes com depressões graves, em casos de transtorno delirante (paranoia) e também na esquizofrenia.

 

Outros tipos de delírio

Delírio cenestopático

O indivíduo afirma que existem animais ou objetos dentro de seu corpo.
Esse tipo de delírio baseia-se na interpretação delirante de sensações corporais vivenciadas pelo paciente, mas sem a temática da doença. Por exemplo, o paciente pode afirmar que há uma laranja podre em seu crânio, ou uma cobra em seu abdome e um peixe dentro dos pulmões.
O delírio cenestopático pode ocorrer principalmente na esquizofrenia e nos transtornos delirantes.

 

Delírio de infestação

O indivíduo acredita que seu corpo (principalmente pele e cabelos) está infestado por pequenos organismos.
Relata, comumente, que há “bichinhos sob a pele”, insetos nos cabelos, vermes, aranhas, etc. Acompanhando o delírio, podem haver alucinações táteis.
Esse tipo de delírio ocorre em pacientes esquizofrênicos, deprimidos, no delirium tremens (consequente do uso de álcool), em intoxicações por cocaína ou alucinógenos e em pessoas obcecadas por higiene corporal.

 

Delírio fantástico ou mitomaníaco

O indivíduo descreve histórias fantásticas com convicção plena, sem qualquer crítica.
Esse tipo de delírio é notável pelas histórias e narrativas fabulosas, totalmente irreais. São descrições que se assemelham a contos fantásticos, ricos em detalhes e francamente inverossímeis.
O delírio fantástico ocorre tipicamente na parafrenia.

 

Principal referência bibliográfica:

Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais – 2ª edição
Autor: Paulo Dalgalarrondo
Editora: Artmed